terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Turbilhão

Abri o Word e fiquei olhando para essa barrinha piscando na minha frente por alguns minutos. Com esse ir e vir irredutível, esperando pelo primeiro caractere, ela parece estar falando comigo. Me encara e ri de mim. “Não vai começar a escrever?”, pergunta a descarada. “Não é você que sempre tem algo a dizer, essas suas verdades tão pensadas, tão faladas e tão mal empregadas?”, insiste.

Pois bem, hoje estou aqui sem rumo, sem palavras estabelecidas. Vejo a inspiração passando, tento agarrá-la e prendê-la, como Peter Pan atrás de sua sombra serelepe, mas ela foge. Quero Wendy com a linha para costurar as minhas ideias. Linha difícil de seguir, essa do pensamento.

Confesso, às vezes meu silêncio tem por razão a falta do que dizer. Esse silêncio tão repetido, quebrado sobre linhas pela barrinha empurrada para a direita, nunca parando de apagar e acender. Mas ele não vem do vazio, do equilíbrio, da conclusão. O dedo pousa sobre o botão mute quando o volume dos devaneios ultrapassa o limite, acorda a vizinhança composta por Dona Certeza, Senhora Serenidade e Tia Plenitude; implanta a insônia no corpo e na alma. Que tal bater nas portas mais próximas pedindo uma xícara de açúcar e um punhado de juízo?

Pois então, barrinha, não me pressione, porque com leveza já é difícil manter-se na trilha de ser quem se é. Sua teimosia apenas me faz perder fragmentos meus: Minha temática, meus vocábulos, meu estilo. Ignoro seu sarcasmo com a certeza de que a autora original retorna. Chegará coberta por convicções e as publicará em primeira edição.

Até lá, desfruto da insensatez da Terra do Nunca.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Para onde você foi?


Dois anos de namoro. Casamento de 25 anos. Amizade de 10. Relacionamentos que, duradouros ou nem tanto, permitem-nos a ousadia de dizer: eu conheço você. Por mais que a essência de uma pessoa possa ser revelada na sinceridade de um olhar, a convivência contínua é o que nos dá a segurança de que sabemos quem, afinal, caminha ao nosso lado.


Espere aí. Sabemos?


O jogo vira quando somos surpreendidos pela imprevisibilidade humana. Por mais que alguns de nós sejam atados a ideais e costumes, não conheço quem tenha nascido com um script em mãos. Prova disso são os momentos em que surpreendemos até a nós mesmos. Se não reconhecemos nem as próprias atitudes, que petulância a nossa querer prever o que virá do outro. Não sendo médium, o melhor é desistir dessa tarefa.


O fato é que a maioria de nós desaprova quando o inesperado surge de quem julgamos conhecer. Mesmo que a surpresa não tenha nada de desagradável, parece-nos desrespeito a falta de aviso. Nesse caso, esse sentimento lembra aquela inconveniente visitante periódica, a insegurança. Nem sempre é fácil aceitar que as pessoas de quem gostamos não precisam de nós para dar novos passos, mas é mesquinhez reprovar e tolher suas decisões em razão do próprio receio.


Não podemos esquecer de que existem as mudanças que não nos parecem – e muitas vezes não são – positivas. Às vezes as pessoas com quem nos importamos realmente tomam atitudes com as quais não concordamos. Isso porque os critérios de cada um não pedem consentimento alheio; são particulares. Por vezes, podemos ficar perplexos e deixar escapar um ou outro “eu não te reconheço mais”. Porém, cada um é livre para fazer, pensar e falar o que quiser, até que provem o contrário. Cabe a nós aceitar que as pessoas vêm e vão, esperando que venham mais – e de bom grado.


O importante é não cobrar a mesmice do próximo, principalmente porque as mudanças compõem a trajetória que percorremos em busca de evolução. E também porque é indiscutível que a inconstância torna a vida mais divertida. Sejamos as tais metamorfoses ambulantes, como preferia ser Raul, e deixemos a previsibilidade apenas para a certeza do último fechar de olhos.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Por um pouco de humor

Não importa o quão otimista você é, quantos livros sobre o segredo das pessoas felizes ler, ou quantos “não se preocupe, tudo vai dar certo” escutar. Mais cedo ou mais tarde, ele te pega desprevenido: o temido mau-humor.

Às vezes não existe nenhum motivo aparente – ele acorda com você mesmo sem ter pedido licença para deitar na sua cama. Pode haver uma razão ainda camuflada, sem levantar a mínima suspeita. E há também o surgimento mais simples: quando o danado manifesta-se por um evento específico. Pense bem, pelo menos você conhece a raiz do problema.

Nesses dias, acordar é difícil. Olhar-se no espelho é deprimente. Sair para o trabalho parece uma missão impossível. Dizer bom dia é quase uma ironia. Todas as pessoas mal educadas do mundo resolvem aparecer na sua vida e fazem de tudo para provar que podem ser mais desagradáveis do que o imaginado. Você fica irritado com todas as coisas que tem para fazer. E com as que não faz. E com todos os motivos que levam a fazê-las ou não.

Guloseimas: Atacar!

A questão é que a maioria de nós lida com esse problema como se ele fosse uma doença que invade o organismo repentinamente e explica todo o nosso comportamento. Na verdade, acredito que seja o contrário. Algo desaparece. Some de nosso corpo. Evapora. Humor, para onde você foi?

Ele está em falta na maioria dos estabelecimentos e parece que quase ninguém se esforça para cultivar o seu. Falta reconhecimento para esse elemento, cuja mínima dose é capaz de proporcionar o equilíbrio necessário de cada dia. Certo: tem dias em que simplesmente não conseguimos e nosso rosto nem mesmo esboça um sorriso. Porém, o que me preocupa é a falta de tentativa. Aquelas pessoas que criam obstáculos em suas vidas por não tentarem enxergar o lado positivo dos acontecimentos. Não veem a graça, não riem dos infortúnios.

Ter humor não significa rir da piada do papagaio. É ter leveza para lidar com as adversidades que surgem. Não deixar a seriedade transformar-se em austeridade. Criar caminhos alternativos, soluções agradáveis. Aceitar os fatos em vez de sempre reclamá-los. Relevar.

Para quem fez listas de resoluções para 2011, fica a dica de um bom item para colocar no topo, acima da academia, da dieta e da viagem à Europa. Até porque o humor faz bem para o corpo, para a pele e para a alma, além de atrair mais positividade do que qualquer amuleto de sorte.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O teste da meia


Recentemente me disseram que o teste da meia é infalível. É muito simples: se você leva mais do que dez minutos para colocar uma meia antes de ir a algum lugar, é porque não quer ir. Isso vale para o trabalho, um encontro, uma reunião, tanto faz. É claro que existe uma linha tênue entre não querer por não ter vontade e aquele nervosismo que causa ansiedade e um pouco de receio, mas que não significa necessariamente que você não quer fazer algo.

Realmente acredito que fazemos coisas demais contra a nossa vontade espontânea, em favor do que acreditamos – ou nos fazem acreditar – que é o correto. Quanto mais penso no assunto, mais duvido que exista realmente “a coisa certa a fazer”. Afinal, alguém aqui veio com manual de instruções ou encontrou por aí o guia das atitudes corretas?

À longa distância, consigo enxergar uma realidade em que as pessoas não dão extrema importância ao que os outros fazem, não acham que devem opinar sobre a vida alheia e não julgam prontamente o que lhes aparece pela frente. Certamente, não é assim que funciona na prática – apesar de ter potencial de solução para problemas de relacionamentos.

Somos julgados e fazemos julgamentos o tempo todo. É assim que a sociedade funciona, já é praticamente natural. A aparência, a cor, a classe social, a religião, a falta de religião, a opção sexual e até mesmo o modo como encaramos certas situações servem de embasamento para que nossas mentes construam um perfil do outro.

Todo esse monitoramento faz com que nos esforcemos para adaptarmo-nos aos padrões do que diferentes setores da sociedade julgam corretos. Mal começamos nossa jornada na Terra e logo descobrimos que nosso futuro já foi desenhado: Nascer, crescer, estudar, trabalhar, casar, ter filhos, ter netos – que também irão crescer, estudar, trabalhar, casar, ter filhos e ter netos.

Um desvio de rota significa uma afronta aos valores da sociedade. Não quero dizer que tais valores não têm estima, mas acredito que cada pessoa tem a capacidade de construir os próprios caminhos em busca da realização pessoal. Se quiser abrir um negócio inusitado em vez de procurar um emprego, faça isso. Se não quiser casar, não case. Se quiser casar depois dos 40, fique à vontade. Não quer ter filhos, não tenha – a decisão é inteiramente particular.

Sem dúvida, sempre haverá uma ou outra mão apontando e criticando, tentando nos reprimir. Às vezes, mesmo quem nos ama não compreende nossas decisões – e lá vêm os conflitos. É preciso buscar equilíbrio - nada como pesar a importância do que desejamos fazer e das consequências desses atos. E muita atenção com o tempo das meias.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Novo Olhar


“De modo geral acho que nos contentamos com muito pouco. Não falo em dinheiro, carro, casa, roupa, jóias, viagens, que esses cobiçamos cada vez mais. Refiro-me aos tesouros humanos: ética, lealdade, amizade, amor, sensualidade boa.” (Lya Luft, Perdas & Ganhos)

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Cobiçamos objetos de valor material, desejamos ter mais dinheiro, adquirir mais, ter mais do que os outros. Raro é ver alguém enlouquecido por generosidade, da mesma forma que mulheres perdem a razão por sapatos nas vitrines. Queremos trocar de carro para ter o modelo do ano, mas não consideramos mudar o modo de pensar e agir. Renovamos os objetos, mas os nossos valores estão cobertos por pó.

Com a chegada do fim do ano, surge a proposta de reflexão. Estamos no último mês de 2010 e dispara o alerta interno que nos faz questionar as nossas realizações no ano que passou – voando, como sempre. Às vezes é difícil ouvir o alerta com o barulho das promessas de um natal perfeito parcelado em dez vezes sem juros. Mas os que conseguem escutar essa voz interior, já exausta nesta altura do ano, começam a equação das atitudes tomadas nos últimos 12 meses. Benditos sejam.

Pensamos nos amigos para quem paramos de ligar. Na família que não visitamos tanto quanto deveríamos. No trabalho com o qual fomos displicentes em alguns momentos. Nos dias em que não fomos à academia. Nas provas para as quais não estudamos. Nas aulas em que não prestamos atenção. Nos aniversários em que não comparecemos. Nas palavras que proferimos sem pensar. E nas que deixamos de dizer.

Vivemos nessa contradição de fazer o que esperam de nós em detrimento do que queremos. Ou o contrário. Porém, considero abençoados os que têm essa consciência – e não culpa -, ao menos. Como disse Lya Luft, nos contentamos com pouco no que diz respeito aos tesouros humanos, não palpáveis. Ponto para aqueles que não desistiram da reflexão em um mundo em que bolsas de milhares de dólares são cobiçadas, enquanto onze mil crianças morrem de fome por dia.

Os especiais que passam na televisão, a decoração nas ruas, as festividades – até os lindos caminhões da coca-cola cobertos por luzinhas de natal que vemos por aí – têm um efeito terno sobre os nossos corpos cansados da correria diária. Aproveitemos, então, para refletir. E continuar a fazê-lo durante os próximos 12 meses, e assim por diante. Agradecer pelas conquistas e bênçãos, seja para o seu deus, santo, ou para o universo. Utilizar a capacidade humana de racionalizar as atitudes para dar bom uso aos sentimentos. Valorizar as conquistas materiais, mas não depositar nelas todo o contentamento. Pensar, sentir, viver. Não há melhor presente – e esse não precisa ser parcelado.

sábado, 20 de novembro de 2010

Vida que segue

Não é à toa que quem disse que velhos hábitos são difíceis de perder é um Rolling Stone. Uma frase tão simples repleta de tanta sabedoria não poderia ser cantada repetidamente por alguém com menor credibilidade. Mas não é de rock que quero falar.

O que Mick Jagger canta representa o que muitos de nós vivenciamos. Que atire a primeira pétala quem nunca tentou fugir de algo ou alguém cujo feitiço lhe fez mal, determinando que a partir daquele momento começaria um novo capítulo. Que atire a primeira rosa quem nunca teve uma recaída. Haja determinação.

“Eu pensei que havia me libertado”, canta Mick. É como nos sentimos ao depararmo-nos com o passado que resolveu bater na porta. Porque é sempre assim. Quando você finalmente acha que encontrou a liberdade a qual procurava, quando consegue se convencer de que o mundo ainda gira, de que recomeços acontecem conforme cicatrizamos por dentro e de que o universo torna-se positivo à medida que você também o faz, eis que surge o danado: o velho hábito. Alô, alô, paciência.

Às vezes são mais que hábitos. Tornam-se vícios. Não falo agora de vícios químicos, mas os old habits funcionam da mesma forma. Você experimenta uma vez, tudo bem. É bom, mas tudo está sob controle. E lá vai você de novo, e mais uma vez. Quando percebe que já é demais, resolve parar, então repara que quer mais, precisa. Ainda que se afaste, a mais sutil lembrança leva você de volta para o mesmo caminho.

A sacada é que não, você não precisa. Sejam lá quais forem os hábitos, eles tentam voltar. Por mais difícil que possa ser ou parecer, é necessário deletá-los. Só em momentos de extrema lucidez é possível enxergar que decisões radicais são fundamentais para seguir em frente. E dói. Apegar-se a aspectos positivos de algo que traz prejuízos é deixar-se levar pelo medo de se arrepender, de sentir dor.

A dor faz parte dos processos evolutivos, meu bem. Attraversiamo.

Perdemos tempo com receio de errar. Lembranças boas tornam-se o porto seguro dos nossos dias e damos passos que nos fazem voltar ao início do tabuleiro. Talvez os caminhos errados sejam realmente os que levam ao destino ideal, mas às vezes é preciso mudar a rota para progredir. Ou pelo menos para encontrar um novo velho hábito com o qual se ocupar.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Viajar para evoluir


Genial foi a criatura que disse que você sempre volta diferente de uma viagem. Concordo plenamente e complemento a frase: quando você viaja, as coisas acontecem. Algo muda. Decisões são tomadas. Segredos são revelados. Pode ser no local de origem ou no de destino, não importa – em algum lugar, surge o novo.

Quando deixamos nosso ninho, a vida continua acontecendo. As pessoas que ficam seguem com suas atividades, os semáforos mudam de cor, crianças brincam nas ruas, trabalhadores voltam para os lares no final do dia, o sol se põe e nasce novamente.

Ao partir de casa, parecemos deixar para trás a vida que conhecemos para adquirir uma nova. Despertador? Horário de trabalho? Preparar o jantar? Compromissos?! Nada disso. Entramos em um mundo que não é nosso, o que o torna incrível. Vivemos para conhecer, aprender, entender, admirar, experimentar. Diga olá ao melhor da vida.

Pelo mundo, nos descobrimos. Em um lugar desconhecido, não há nada nem ninguém que imponha o que você supostamente deve ser ou como deve agir e pensar. Encontramos a liberdade. Aquilo que vivenciamos passa a fazer parte do que somos. As novas experiências ficam tatuadas por dentro e nos transformam. Temos a oportunidade de esquecer as mágoas. Descobrimos novas perspectivas e revemos nossos conceitos. Crescemos. Evoluímos.

Não há semáforo ou pôr do sol que resista: nada mais é igual.