Depois de sobreviver à bateria de desfavores que 2014 me proporcionou, a chegada de 2015 veio como um fôlego necessário (e na hora certa). Recém estamos em maio e, olhando pra Ingrid exausta e ao mesmo tempo esperançosa do ano passado, concluo: mal sabia eu que em apenas cinco meses viveria o melhor e o pior ano da minha vida.
Logo em janeiro as coisas mudaram completamente. O endereço, as atividades, as companhias — enfim: EU, todinha renovada, porque não dá pra ficar parada no mesmo lugar depois de certos tombos. Então lá fui eu, em frente, adelante.
Em menos de um semestre redescobri minha liberdade, meu tempo e minhas qualidades, que tinham sido depreciadas por toda sorte de motivos, inclusive por minha desatenção. Foram muitas boas revelações e conquistas em um só golpe. Mas eu também dei de cara com um turbilhão de decepções.
Fui confundida com um saco de pancadas inúmeras vezes. É incrível como a gente se torna alvo quando mostra pro mundo que sabe se reerguer. Parece que quando se supera algo pesado expondo a própria força as pessoas leem nisso a seguinte mensagem: sou forte, vem ver se consegue me nocautear.
2015 tem me ensinado muito sobre sangrar. Venho descobrindo que quase todo mundo evita encarar as próprias feridas, mas é raro ver alguém pensando duas vezes antes de mexer nas dos outros. O discurso silencioso é algo como “se é pra pele de alguém romper e o sangue escorrer, que não seja o meu”.
Pois bem: eu desisti de ter medo da dor. Não temo mais o desespero do peito aberto. Estou em paz com a vulnerabilidade que a gente mostra quando decide não ser só mais um boçal insensível.
Gosto de encarar cada corte com cautela e entender a motivação do golpe. Eis outro ensinamento: geralmente, quem tenta te machucar é quem mais está lutando contra a própria aflição. E é preciso força pra entender isso e permanecer centrado. Só assim é possível não rebater.
Cinco meses passaram voando, mas carregam consigo um roteiro recheado de experiências. Aguardo os próximos com uma única e perspicaz certeza: se alguém precisa parar de chorar, gritar, sangrar e sentir pra seguir em frente, não sou eu.
segunda-feira, 18 de maio de 2015
segunda-feira, 30 de março de 2015
Oito Patas
A gente assistiu à história toda acontecer e fez de tudo pra ajudar. Pode parecer que somos só oito patas fofinhas, mas temos muitos bigodes de astúcia. Precisamos confessar que tínhamos medo do dia que você fosse embora, papai. Certamente não por nós dois, mas pela mamãe, que vivia em função de te agradar, sem ver que a batalha estava perdida.
Até que você se foi.
Nosso receio maior era porque não sabíamos se mamãe ia notar tudo que a gente já enxergava faz tempo. Tínhamos certeza de que ela podia ficar bem sozinha, mas ela não.
A gente soube que logo você não ia aparecer mais quando começou a nos deixar esperando. A mamãe avisava que você estava vindo às 19h, mas você só aparecia depois das 23h e ficava bravo se ela pedisse alguma explicação. Depois de um tempo ela foi convencida de que estava mesmo errada. Onde já se viu querer saber por onde andava o papai naquelas quatro horas? Que maluca neurótica, né.
Os felinos também têm um olfato bastante aguçado, sabia, papai? A gente sentia em você o aroma de alguém que nunca havia estado naquela casa e você nem se ligava. Não era de se estranhar, já que você não notava nem o cheiro incrível da mamãe, sempre tão perfumada, com todos aqueles cremes importados.
Ela também te encontrava toda produzida, com roupas nas quais as mamães dos nossos amigos jamais entrariam, e você nem olhava mais pra ela. Por um tempo nos fez pensar que sua visão estava péssima, mas depois entendemos que não era bem isso.
Notamos que você não queria mais ir nos ver e, em vez de ir embora logo, quase acabou com a sanidade da mamãe. Ela ficava muito mais cheia de energia quando você não estava por perto e chorava sem entender do seu lado. Lembra? Foi bem mais de uma vez, papai.
Como você não tinha coragem de desocupar o terreno, a gente começou a tentar tirar você dali. Nunca notou que a gente passava a noite toda te arranhando e tentando te acordar, enquanto deixávamos a mamãe dormir na mais santa paz? Pois é.
Mas aí teve aquela noite que a mamãe não apareceu e a gente sabia que algo tinha acontecido, finalmente. E você não viria mais. Por alguns dias depois disso, aquela moça que entrava e saía de casa nem parecia ela mesma de tão desnorteada. Mas foi pouco tempo até que isso se tornasse algo bom.
Logo ela se mostrou mais leve e cheia de disposição. Encaixotou todo o nosso lar (menos as suas coisas, que ficaram lá, papai) e nos levou pra um novo endereço. Agora a gente tem mais espaço pra correr, novas janelas pra espiar (e escalar) e um sofá só nosso.
E a mamãe?
Ela ganhou a vida dela de volta. Perdeu alguns quilos, a maioria carregados nas costas. Ficou mais bonita, mais alegre, mais viva. Organiza o tempo dela conforme as próprias vontades, faz programas legais o tempo todo com os amigos e nunca mais ouviu ninguém dizendo que ela sufoca. Aparentemente, só você não queria a atenção dela, papai.
Ela tem andado em novas ruas, dormido em novos quartos e provado outros sabores. Ouve as músicas que tem vontade sem ser questionada, faz todos os comentários que quer durante um filme e nunca mais preparou um café da manhã que tenha sido ignorado. Criou uma rotina que você nunca vai conhecer, fez uma tatuagem na qual você nunca vai tocar e fechou as portas pra tudo que leva ao passado.
Ainda bem que o inevitável aconteceu e você se foi, abrindo espaço pra que ela voltasse a ser feliz. E ela conseguiu, como a gente esperava. Você também, né? Pelo menos é que a gente ouve ela dizendo por aí: que foi o melhor pra vocês dois.
Ronronamos aliviados.
Ela não precisa mais de você. Nem a gente. Prrr.
domingo, 31 de março de 2013
Lacuna
Notei. Foi quando já
fazia horas que estava batendo nas teclas do computador sem intervalo, os olhos
cansados, aquele zumbido tradicional depois de certo tempo. Antes
pensava ser a tela, aquela luz incansável atingindo as córneas, mas depois de descobrir
em mim um déficit de atenção digital, percebi que caí, sim, no tão famoso excesso
de informação. Hum, ok, clichê. Aba atrás de aba, quero ver isso, vou ler
esse artigo daqui a pouco, essa foto é nova, esse aqui ficou solteiro, essa
aqui se formou, não achei superinteressante, depois
eu assino, esse colunista só pode ser comprado, o anexo é muito pesado, cinco segundos para pular o anúncio. Nem mesmo sei a quantidade de vezes que mudei de janela antes de
terminar esse parágrafo.
O sintoma: desatenção. Hoje passei o dia inteiro sem ouvir música. Posso ter escutado um hit
qualquer vindo da rua, durante o trajeto de sempre ou em algum vídeo aleatório que eu comecei
a ver mas desisti em menos de um minuto. Entretanto, os discos favoritos e os que
aguardam na fila desde o lançamento não chegaram nem perto dos meus tímpanos. Música,
de uma forma geral, está no topo da minha lista de interesses e, no final do
dia, me dei conta de que a esqueci lá
longe, com os demais planos que ficaram dormindo quando saí de casa logo cedo. Não
reservei sequer um momento para me conceder esse afago sonoro, esse carinho na
alma, esse prazer tão simples para qual basta ter ouvidos. Preenchi o dia com
inúmeras atividades, mas deixei uma lacuna no campo da atenção a mim mesma.
Assusta saber que mesmo estando consciente do estrago, não passo nem
perto da exceção à regra: sou mais uma das vítimas. É fácil achar errado colocar obrigações
do ofício na frente dos interesses pessoais, falar confiante que não se deve
sacrificar a saúde (física e mental) em nome de interesses financeiros, sociais
ou profissionais. A qualidade de vida em
primeiro lugar. Aham, tá bom. A gente se acha muito lúcido e esclarecido até olhar em
volta e só enxergar quatro paredes, e aí perceber que encara mais o relógio do que
o espelho.
Sem
querer, a gente cria retratos de um desleixo consigo, provas de uma pobreza na dedicação
ao próprio gozo. Mas tudo bem, é sem querer, lembra? Um vinil em silêncio, uma
bicicleta às moscas, receitas guardadas, macarrão instantâneo, um violão
empoeirado, um guia de viagem esquecido, um livro servindo apenas de peso. Hoje
não deu tempo, amanhã sem falta, essa semana fica complicado, vou retomar
durante as férias, é difícil voltar à ativa, há alguns anos eu levava jeito. Bom
te ver, vamos marcar alguma coisa? Ai que saudade, mas tenho que ir, tá no meu
horário.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
O time do pé
Às vezes me pego fazendo parte de um time do qual
não tenho total orgulho. Para nós, o equilíbrio nem sempre é natural, então
precisamos nos apoiar com firmeza sobre os dois pés. Ok, todo mundo precisa. O
que nos diferencia é que um dos pezinhos se posiciona um pouco distante do
outro. Deixamos ele logo ali, atrás. Longinho. Temos um pé atrás, entendeu?!
Perdão, só queria me certificar.
A raça dos desconfiados não dá sossego, não
acredita fácil. A gente suspeita, interroga, indaga, desconfia mais um pouco,
levanta uma das sobrancelhas e respira fundo. Haja respiração. Até podemos
aceitar (que é um verbo incrível, por sinal), mas acreditar, bem acreditadinho,
aí já é outra história. Tem alguém aí duvidando?
O
pior de tudo é que a gente se acha muito esperto. Olha só, quanta genialidade,
não botar fé em ninguém, viver pensando que tem mais algo por ser revelado. O
pior é quando nós mesmos somos alvo de desconfiança – aí a coisa fica feia. E veja
só quanta coincidência: os destaques desse time também brilham nas equipes dos
solitários, dos avarentos, dos incompletos. É um brilho ofuscado, como você
deve imaginar.
É
claro, tem muita gente que merece boas doses de desconfiança mesmo. Os dois pés
bem longe, a vários passos de distância, inclusive. Mas essa quantidade
excessiva de espertinhos no mundo, esses que acham bonito passar por cima dos
outros, não é culpa dos bem intencionados. Tem gente que é bacana. Que devolve
o troco quando vem errado. Que não estaciona em vaga preferencial. Que quer te
fazer feliz e não de trouxa. E mais importante: tem gente que enche a forminha
de gelo. Amém.
A
boa notícia é que, com um bom treinador, esse time pode aproveitar o dom peculiar, esse faro aguçado – até demais.
Não, não estou prestes a dizer que deveríamos todos explorar a veia investigativa. A verdade é que quem sempre
acha que tem outra versão da história escondida está a poucos passos de
aprender a enxergar a pluralidade, de reconhecer que há sempre mais de uma voz
para discursar.
Instintivamente, é muito fácil achar que tem algo de negativo
do outro lado da porta, é uma autodefesa. Porém, com um pouquinho de esforço,
a gente aprende a controlar o impulso cético. Basta ser um atleta dedicado,
frequentar os treinos e se esforçar, gente. Ou pelo menos encostar bem os pés
no chão, para conhecer de antemão o território onde se pode cair quando nossa
intuição para o bem falha.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Indicação
Não
é fácil falar de amor. O simples ato de mencionar essa
palavra já na primeira frase é um tanto quanto ousado. Provavelmente porque em algum momento foi determinado que amar não é cool, que amar é para os tolos, atestando que está todo mundo apavorado e agarrado à preservação de
uma imagem impassível. Bando de coitados, nós, humanos.
Lembro-me de quando li as palavras Amar é normal, frase que inicia o livro A Manhã Seguinte Sempre Chega, de Gabito Nunes. Como deve ter sido para muita gente, a sensação que esses termos provocaram em mim foi equivalente a um soco no estômago. A ideia de amar sempre me pareceu leve e sutil com um elefante. Gabito me desafiou.
Lembro-me de quando li as palavras Amar é normal, frase que inicia o livro A Manhã Seguinte Sempre Chega, de Gabito Nunes. Como deve ter sido para muita gente, a sensação que esses termos provocaram em mim foi equivalente a um soco no estômago. A ideia de amar sempre me pareceu leve e sutil com um elefante. Gabito me desafiou.
Isso
foi no início de 2011 e, ainda bem, a vida deu muitas voltas desde então. Sem
os pormenores desnecessários, posso dizer que, querendo, a gente vai mudando,
desfazendo-se de tabus bobos e descobrindo que pode conhecer muita coisa
incrível se deixar de querer parecer mais forte do que é preciso. Por isso, nesse clima inevitavelmente tenso em que se está vivendo desde
a tragédia do último domingo em Santa Maria, hoje eu vim apenas para recomendar
o tal sentimentozinho polêmico. Veja bem, vou mencioná-lo pela segunda vez,
agora em francês para ficar mais pomposo e para não pecar na repetição: l’amour.
Recomendo
um friozinho na barriga, uma timidez intensa e boa, ansiedade, pressa e
insensatez. Acho essencial ficar distraído toda hora, rir sozinho e não
conseguir controlar um sorriso besta quando pensa na pessoa amada. Recomendo trocar
espaços lotados e etílicos por um lugarzinho no sofá, no chão, na janela; onde
quer que caibam dois corpos bem próximos, o suficiente para que respirem o mesmo
ar. Recomendo inseguranças, expectativas, planos, segredos e quaisquer outras
bobagens que construam uma cumplicidade única e intocável. Recomendo uma
companhia que desperte a generosidade mais pura. Recomendo um amor que lhe
transforme na sua melhor versão.
Recomendo
apaixonar-se pelas pessoas que estão por perto, que dedicam tempo, energia ou
apenas um pouquinho de carinho. Indico abrir a mente e o coração para os
amigos, entender sua existência como parte essencial da vida e ter uma postura
(novamente) generosa. O mesmo vale para a família, composta por variações de você mesmo. É bacana ter paciência com quem a compõe, faz bem para todo mundo - até porque a gente exige bem mais dedicação
do que pensa.
Recomendo
encontrar lugares, atividades, objetos e comidas (sim, comidas!) que provoquem
sensações boas, que completem aquilo que cada um já é ou está em busca de ser. Recomendo
flexibilidade, porque a gente tem a mania de desgostar de muita besteira e
perder tempo com críticas, enfraquecendo a essência das coisas, até de si mesmo.
Acima de tudo, recomendo entrega. Aos sentimentos, às pessoas, a atos de
coragem e até a arrependimentos – tudo, menos à covardia. Apenas porque é
preciso de algo sólido em que se segurar quando a vida nos atinge com golpes irremediáveis.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Desventurados
Todo mundo
gosta de ser reconhecido por realizações bacanas, de ganhar elogios por um bom
trabalho (ou pelo sapato novo), de receber atenção quando a coisa aí por dentro
não anda na melhor das condições. Pois bem. Difícil conhecer alguém que
desgoste de admiração e dispense um olhar terno e atento. Aliás, difícil é uma
palavra bem amena, porque o povo está precisando tanto de ser visto que o que once upon a time foi pedido de atenção
virou necessidade de aprovação, traduzida em atitudes cotidianas aparentemente
inocentes.
Todo mundo tem lá suas incertezas e as revela vez e outra - nada mais saudável. Por outro lado, os inseguros de verdade, os de carteirinha, vestem armaduras que julgam ser invisíveis, dentro das quais revelam pequenas
manifestações de (perdoem-me) desespero e desorientação. Impor demais um tipo de atitude ou de
pensamento, autoafirmar-se através de uma conduta intransigente e,
principalmente, ostentar um determinando comportamento o tempo todo são sinais muito (muito!)
nítidos de insegurança. Querer ser visto e lembrado constantemente evidencia o
quanto as pessoas tentam esconder serem vulneráveis e carecidas de aprovação. E para quê?
Quem não tem
culpa no cartório não necessita fazer milhares de demonstrações de boa índole.
Quem entende muito de um assunto não precisa mencioná-lo o tempo todo, muito
menos quando não for solicitado. Quem se gosta de verdade não
precisa depreciar os outros, nem provar o que não quer para ninguém.
Ah, ia esquecendo. Quem está satisfeito com a própria aparência, seja a forma física ou o modo de se vestir, não tem necessidade de passar o dia publicando fotos de si mesmo em redes sociais. Postura, gente. Está faltando.
Ah, ia esquecendo. Quem está satisfeito com a própria aparência, seja a forma física ou o modo de se vestir, não tem necessidade de passar o dia publicando fotos de si mesmo em redes sociais. Postura, gente. Está faltando.
Queira agradar os seus chefes, os seus professores, os
seus pais, os seus amigos – fique bem à vontade inclusive para massagear o ego
das pessoas. Generosidade não faz mal a ninguém, muito menos em se tratar de
atitudes bacanas. Mas vá lá: há um limite entre esforçar-se para ser como almeja
e sujeitar-se a moldes, condições e aprovações, tudo isso com sede de aplausos.
É evidente demais e um tanto quanto patético, pessoal.
Aos
autoconfiantes, dedico a minha total admiração. Adoro ver gente que não se
abala por pouca coisa, que vive sua vidinha sem plateia e que não espalha
arrogância por aí. Porém, estou certa de que a insegurança
genuína está em todos nós – e não há problema nisso. Tomemos nota: a fragilidade faz parte desta condiçãozinha de sermos humanos. Eu acho mais fácil aceitá-la.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Feliz por tudo
Há alguns meses mergulhei na última compilação de crônicas da Martha Medeiros, Feliz Por Nada. No texto que intitula o livro, ela fala sobre o quanto a felicidade costuma ser conduzida por eventos específicos: trocar de emprego, ser promovido, ganhar uma bolsa de estudos, receber um aumento no salário, viajar - em resumo, conquistar algo. A ideia que a autora levanta nessa crônica investe no desapego: Martha afirma que a melhor felicidade é aquela que não vem envolta em um pacote de presente, um envelope ou um contrato. Bom mesmo é ser feliz por motivo nenhum, apenas por ser. Gente, não é lindo isso?
O problema é que, pelo menos no meu mundo, isso só considera um dos lados da moeda. Levando em conta que a vida é cíclica, não raro chega o momento em que a gente tem tudo, o emprego, a família, a casa, os amigos e, mesmo assim, não se sente satisfeito. Mesmo gente normal, que faz o que pode pra ser justa e coerente, nem sempre pode fugir de sentimentos ruins ou de injustiças do cotidiano. Há vezes em que ter o carro do ano, uma casa novinha na praia e uma saúde impecável não significa que o estado de espírito esteja assim, uma Brastemp. É, povo, estou falando de ser infeliz por nada. Pode, viu?
Não é mistério nenhum que felicidade não vem apenas de fora para dentro, mas elementos externos são, sim, fundamentais para chegar mais perto do tal contentamento. O problema é que a ideologia em evidência alega que basta consumir os produtos certos para chegar até o bendito pote de ouro no final do arco-íris, sem ressaltar que cultura também é um produto, e que tem muito mais do que novela mostrando gente rica, bonita e feliz para ser visto e consumido - sem querer tirar o mérito da Carminha. Enquanto a massa se padroniza e tem o senso crítico inibido, ninguém parece perceber que, em geral, estamos fazendo compras no corredor errado.
Podem me chamar de inocente, mas sou do time que acredita que um almoço em família, uma volta no parque com boas companhias e uma festa bem animada no final de semana são impecavelmente efetivos em se tratar de satisfação do consumidor. Tudo isso sem a bolsa de grife, a camisa com o crocodilo e o carro com câmbio automático, que deveriam mesmo ser agrados secundários. Eu sei, vão mandar me internar num hospício, mas também acho que se sentir infeliz de vez em quando faz parte dessa condição incontestável que é sermos humanos.
Melhor do que comprar seja-lá-o-que-for de grife, aparelhos de ginástica ou um home theater, é sintonizar na rádio bem na hora em que está tocando a sua música favorita, rir sozinho no ônibus lembrando de alguma besteira, e encerrar o dia com um beijo apaixonado. Felicidade genuína, com motivos, e que coloca em segundo plano o desejo por um novo par de sapatos - que também não é nada mal. Desculpa aí, Marthinha, mas na minha bandeira está escrito que bom mesmo é ser feliz por tudo. E sem culpa.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Vinte e poucos
Está circulando na internet um texto, de autor desconhecido, chamado “A Síndrome dos Vinte e Poucos Anos”. Apesar de a princípio desconfiar desses virais cujo conteúdo parece encantar a todos muito facilmente, cheirando a produto que já vem digerido - como qualquer um dos livros de Nicholas Sparks, a nova casa noturna que você preciiiisa conhecer, e, mais ainda, figuras talentosíssimas (totalmente comerciais) ao estilo de Lana del Rey ou Lady Gaga -, resolvi descobrir o que havia na obra assinada por DESCONHECIDO, Autor.
O Mr. Unknown não escreveu nada de extraordinário, mas utilizou-se do infalível artifício conhecido como identificação, fazendo a galerinha que recém começou a viver a terceira década de vida enxergar-se naquelas linhas como se diante de um espelho. Estando eu incluída na faixa etária, tive a mesma sensação que meus parceiros de clubinho: ao ler as palavras que descreviam muito de como tenho me sentido, quais mudanças tenho percebido, e o rumo que em geral os acontecimentos têm tomado, pareceu-me que o sem-nome andou espionando meus pensamentos.
O autor-oráculo decorre sobre como nossos gostos inclinam-se para uma direção mais determinada, o quanto nossa tolerância adolescente dá lugar para o pensamento crítico, como nossa percepção altera-se drasticamente, além do círculo (e vida) social que, para quem não fica preso ao mesmo universo dos anos teen, costuma mudar consideravelmente. Em resumo, sobre as alterações todas que podem (ou não) desvairar nossas metamórficas cabecinhas. Francamente, acredito que quem não passou por nenhuma transformação nessa etapa de natural transição provavelmente segue consultando o pediatra e ganhando pirulito na saída. Metaforicamente falando. Ou não.
Ter vinte e poucos significa sair da zona de conforto que há pouco havia despedido-se da infância e apenas avistava longinquamente a vida adulta e as responsabilidades incluídas no pacote. Os vinte e poucos de agora em nada têm a ver com os de nossos pais, ainda que eles jurem ter passado por exatamente as mesmas coisas. É uma idade em que damos de novo os primeiros passos, descobrimos a independência, entendemos a singularidade, desvendamos o respeito e a gratidão, vivenciamos uma avalanche de sentimentos novos, desta vez sem todas as bobagens essenciais da adolescência. Seja mudando completamente ou seguindo o mesmo caminho, começamos a moldar com maior clareza quem seremos nas próximas décadas. E, sim, já dá para começar a contabilizar décadas.
Diferentemente do Autor Desconhecido, não desejo ter novamente 16 anos, mas concordo que os 30 chegam em um piscar de olhos - sem pânico, gente. Aproveitemos, então, os 20 e companhia, entendendo tudo e nada ao mesmo tempo, e permitindo-nos viver quantas crises forem necessárias. Ainda estão para inventar uma maneira mais divertida de enlouquecer.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
48 horas existindo
Pois é, fiz o teste. Não foi premeditado, simplesmente olhei para o computador e, em um impulso incontrolável, parecido com aquele que a gente sente quando se depara com uma caixa de Bis branco e ninguém está olhando, cliquei. Desativei minha conta do Facebook. Desculpa aí, Zuckerberg.
Preciso admitir: ando num momento pavio curto, sem a paciência com a qual eu antes administrava lindamente o dia a dia. É apenas uma fase, provavelmente a tal crise-pós-intercâmbio surgindo tardiamente, crise de meia-idade antecipada, astros desalinhados, ou coisa que o valha. Basicamente, tenho achado as imbecilidades imbecis demais para suportar, e o Facebook é um espaço que concentra uma quantidade massiva de asneiras que a impaciente aqui não tem conseguido engolir. Pode me chamar de besta intolerante - eu concordo.
A questão que eu quero levantar com a história do assassinato (parcial apenas, porque não se apaga a conta, pode-se apenas desativá-la) do meu Face é que, como mencionei, não estou no melhor período da minha existência, o que pode acontecer com qualquer mortal. Nos últimos meses, vivi um período de constante questionamento sobre minha insatisfação crônica sem fundamento. Durante esse processo, compartilhei da forma mais clara que consegui essa angústia, ora com amigos próximos, ora com qualquer ouvido que estivesse por perto.
Minha conclusão foi que, por mais bem intencionadas que as pessoas sejam, ninguém consegue entender por meio de palavras sentimentos que são turvos até para quem os vive. Entre um diálogo e outro, a sensação ruim alheia acaba caindo no esquecimento. Nada de condenável, coisas de humanos.
Isso, é claro, até eu resolver desativar sem aviso prévio aquela página com a minha foto, minhas informações - praticamente minha identidade digital desenhada em azul e branco. Menos de duas horas após eu ter cometido o crime social (mais especificamente: de madrugada), fui bombardeada com mensagens SMS, e-mails, tuítes, cartas e sinais de fumaça com a fatídica pergunta “Você apagou o Face?”, lindamente seguida de seríssimas indagações sobre o meu estado de espírito, se havia acontecido alguma coisa comigo, se estava tudo bem. Preocupação geral, alerta nacional. Para mim foi apenas um clique, mas a reação que provoquei fez eu achar que havia tentado me suicidar, só que sem ter ficado sabendo.
Minha ausência não durou muito. As 48 horas durante as quais permaneci fora da maior rede social do mundo foram bastante estranhas, não necessariamente de uma forma negativa. A sensação é basicamente de estar à margem de uma extensão do mundo, pois o Facebook entrou na vida das pessoas em uma proporção tão absurda que as coisas, de fato, acontecem dentro dele. A gente fica sabendo de notícias importantes através de um balãozinho vermelho, e ai de quem não clicar a tempo de acompanhar o ritmo da sociedade online.
Sou obrigada a confessar: gostei da sensação. Adorei não saber o que todo mundo está fazendo, não ver a foto da comida de ninguém, não ler reclamações sobre o tempo, ou autopromoções lamentáveis. Assim como curti (perdoem o trocadilho) sentir que não fazia parte, por esse breve período, de um espetáculo em que o show equivale a publicações, e os aplausos, a cliques e comentários. Continuei existindo mesmo sem ninguém ficar sabendo.
Pois bem, abandonei as tropas de resistência. Voltei. Sou humana e também um perfil. De nada, Mark.
Pois bem, abandonei as tropas de resistência. Voltei. Sou humana e também um perfil. De nada, Mark.
terça-feira, 3 de julho de 2012
Apelo
A sequência de despertares por vezes perde sentido. De nada adianta colocar sobre isso o peso da eternidade, mas o vazio tem o poder de tornar-se evidente, ainda que transitório. O essencial tem portado-se bem, mostra-se presente, mas é sempre a falta quem grita mais alto. Rebato: Cadê você, pulso?
A vontade é de ouvir uma resposta que não seja apenas o eco. Alguém aí me fala de um lugar para ir. Sugere uma pauta para eu escrever minhas baboseiras, nem que seja sobre os tons de branco do meu quarto, ou o azul do meu reflexo. Me pede para falar sobre o semáforo, que eu faço uma analogia infundada com o curso da vida. Ou sobre perspectiva, que eu falo de miopia e de Bukowski. Me mostra alguma coisa que altere minimamente minha frequência cardíaca, que prenda minha atenção sem que eu queira rebobinar instantes. Não nego o gosto pelo intenso, mas já faz um tempo que o mais forte que consigo é o desprezo. Verdade, estou pedindo para que façam eu me calar por haver algo que eu queira ouvir.
A vontade é de ouvir uma resposta que não seja apenas o eco. Alguém aí me fala de um lugar para ir. Sugere uma pauta para eu escrever minhas baboseiras, nem que seja sobre os tons de branco do meu quarto, ou o azul do meu reflexo. Me pede para falar sobre o semáforo, que eu faço uma analogia infundada com o curso da vida. Ou sobre perspectiva, que eu falo de miopia e de Bukowski. Me mostra alguma coisa que altere minimamente minha frequência cardíaca, que prenda minha atenção sem que eu queira rebobinar instantes. Não nego o gosto pelo intenso, mas já faz um tempo que o mais forte que consigo é o desprezo. Verdade, estou pedindo para que façam eu me calar por haver algo que eu queira ouvir.
Alguém faz eu acreditar que sobrou algo real, se for possível. Me mostra a cara da vida, o cheiro do genuíno, a vibração do pulso. Tira essa névoa da minha frente, que não compensa me esconder e não enxergar o que está logo ali. Quero ser lembrada sobre o cuidado, exijo ver a face do esforço, preciso saber que tem mais alguém vivo aqui, ou se fui eu que passei para o outro lado. A teoria propõe, e a prática comprova, mas cadê as evidências na minha correspondência? Ser remetente profissional cansa, pode ter certeza.
Por onde anda o tangível? Tenho sentido falta da despretensão, provavelmente meu substantivo favorito. Não compreendo o almejo pelo impecável, que apenas vulgariza o belo. Estão tirando o lugar do simples em busca do padronizado, do pensamento moldado, do caminho mapeado. Só não sobrará nada para ser enquanto a autenticidade for negligenciada. Chega dessa zona de conforto, de dar crédito para o tédio. Quero ver destronarem a apatia, desafiarem a uniformidade - e fazê-lo por vocação.
Alguém me mostra a tentativa, a falha e o acerto. Fala algo que tire o meu chão, que desgaste a minha mente, que desafie a minha fibra. Alguém, por favor, me oferece um pouco de inspiração, para gratificar essa busca constante e manter desperto o instinto vital.
domingo, 24 de junho de 2012
Plugados
De vez em quando, o plugue dos meus fones de ouvido escapa da entrada do aparelho de mp3, ativando o autofalante com um volume considerável. É meio constrangedor, até porque costuma acontecer em lugares públicos, como numa sala de espera ou no ônibus, inesperadamente quebrando o silêncio – e, é claro, fico feito uma desesperada apertando todos os botões tentando pausar as músicas.
O engraçado é que cada vez isso ocorre imagino como seria
caso tivesse um conector desses em minha mente, e que, de repente, escapasse. Se
sem querer ativasse autofalantes da minha cabeça, rompendo a até então
impenetrável privacidade dos meus pensamentos. Sinceramente, apenas considerar
o estrago já me deixa desconfortável.
Na crônica Se eu fosse
eu, publicada no livro A Descoberta
do Mundo, Clarice Lispector falava de algo parecido. Divagava sobre o que
aconteceria caso as pessoas se despissem da imagem de si e encarassem o desafio
de ser o que realmente são por dentro. É algo a se considerar: viver em
sociedade faz com que ninguém seja exatamente o que gostaria de ser. Isso não
significa infelicidade, porém lembra que não apenas nossas ações são limitadas,
como também o próprio jeito de ser. Sendo quem somos, nos desprenderíamos das
regras com as quais não concordamos, mas que o senso social nos obriga a
cumprir.
“Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso
contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na
cadeia.”, confessa Clarice. Honestamente, eu também. Na verdade, acredito que
já estamos todos presos, apenas em uma cadeia diferente. Somos induzidos a acreditar
que temos opções, e que as supostas escolhas são sinônimo de felicidade. E
aceitamos, satisfeitos. O que é certo ou errado já foi decidido antes que
chegássemos: está tudo escrito, é só ler o manual. Podemos seguir a conduta do
bom samaritano e descansar no final do dia, felizes por haver regras que
facilitam a nossa vida. Abster nosso questionamento é só um detalhe; são as
letras miúdas cuja leitura é dispensável.
Se eu fosse eu, seria uma total desbocada. Gritaria na cara
do mundo o quanto é patética a submissão das pessoas à imagem. Que o fato de as
aparências dominarem o julgamento torna as mentes pequenas, senão desprezíveis.
Que a necessidade de parecer, mesmo sem realmente ser, resulta em indivíduos
cada vez menos interessantes. Que o medo de ser vulnerável é mais um indício da
crescente hipocrisia humana. Que a falta de sensibilidade não torna ninguém
mais forte, apenas cego, e esse é um dos maiores motivos para estar todo mundo
desorientado no meio dessa balbúrdia. Que quase ninguém cultiva afetos, apenas
contatos, e por causa dessa estupidez está sobrando solidão por aí. Que
autopreservação e egoísmo são conceitos totalmente distintos, mas parece que
ninguém sabe diferenciar. Que está faltando realismo nessa realidade acéfala.
Entretanto, pacata que sou, nem mesmo sussurro essas
palavras, mantenho meus pensamentos muito bem plugados ao ambiente seguro da
mente. Sigo sendo o eu que posso ser, esforçando-me para não imergir totalmente na inércia de
ser apenas mais um boçal. Tento.
Imagem: gettyimages
domingo, 27 de maio de 2012
Nova vida
Olá, pequeno. Seja bem-vindo! Desculpe por todo esse barulho, sei que estava bem mais calmo ali dentro. Você estava bem quentinho e confortável há
tanto tempo e de repente lhe tiraram do casulo. Então pode gritar à vontade
agora, ninguém vai te julgar – essa parte só começa daqui a uns anos mesmo.
Não, não precisa abrir os olhos tão rápido. Aproveita a tranquilidade dessa
vida sem palavras nem dentes, que tem bastante coisa por vir.
Veja bem, vai ter que ser compreensivo, pois por enquanto você é basicamente um troféu-almofada: todo mundo quer te ver e te apertar. E seus pais vão adorar ser o campeões da vez. Pega leve com eles: os babões são a base de tudo que você é e não medem esforços para lhe ver feliz, limpinho e, preferivelmente, dormindo das 22h às 7h. Dá uma força aí, né.
Veja bem, vai ter que ser compreensivo, pois por enquanto você é basicamente um troféu-almofada: todo mundo quer te ver e te apertar. E seus pais vão adorar ser o campeões da vez. Pega leve com eles: os babões são a base de tudo que você é e não medem esforços para lhe ver feliz, limpinho e, preferivelmente, dormindo das 22h às 7h. Dá uma força aí, né.
Quando aprender a falar, por
favor, não se esqueça de utilizar as palavrinhas mágicas. Nem mesmo com os mais
próximos, pois intimidade não anula a necessidade de gentilezas – mesmo que a
maioria das pessoas tenha dificuldade de recordar-se disso. Você vai ouvir
alguns termos chulos, mas a dica é ficar bem longe desses. Há muitas maneiras
de se expressar sem fazer uso da vulgaridade.
Por falar nisso, não será preciso
nem uma década para que você se depare com gente que faz coisas que seus instintos
reprovam. Não importa aonde for, vai encontrar tipos que tentarão convencer-lhe
de que tudo o que você conhece como correto até hoje é bobagem. Preste atenção:
é sempre melhor acreditar nos valores que seus pais plantaram em você. Eles sim
querem o seu bem. Jamais duvide disso, mesmo em situações drásticas,
extremamente difíceis de enfrentar. A adolescência, por exemplo.
A fase da acne e das infinitas
dúvidas pode ser bem penosa. Inclusive para a sua família, coitada. São anos de
turbilhões de emoção, insegurança e busca por algo que não saberá exatamente o
que é. Até que, se tudo der certo, finalmente encontra: você mesmo, surpresa!
Mas não se preocupe, vai ter muita diversão e risadas nesse meio tempo. Não o
desperdice; faça um esforço para aliar diversão e estudos. A informação é o
biotônico da adolescência. Deixa você forte o suficiente para sobreviver a ela.
Com sorte, vai também adquirir os melhores anticorpos: a opinião e a mente
aberta.
É difícil definir quando alguém
enfim torna-se adulto. Todo mundo segue o protocolo: acorda cedo, trabalha, se
estressa, decide um monte de coisas, vai ao dentista sozinho e não ganha
pirulito no final da consulta. Porém, não se deixe iludir. Estão todos no mesmo
barco, usando roupa de gente grande e disfarçando a avalanche de dúvidas que
assola a mente. A turma toda quer saber quando por fim consegue-se ser bem
resolvido. Sim, somos todos uns tolos.
A verdade é que passamos a vida
esculpindo a própria personalidade, enquanto o mundo tenta nos moldar. Você tem
total liberdade para ser exatamente o que as pessoas esperam que seja. É
preciso muita energia para criar o próprio espaço e manter a forma que se
escolhe ter, sem invadir o gramado do vizinho. Não existe um critério exato
para seguir, mas há alguns caminhos favoráveis.
Explore a arte. Ela mantém viva a
sensibilidade que a dureza do mundo tenta sufocar. Leia bons livros,
considerando que bom é aquilo que te dá prazer e preferencialmente te
acrescenta algo, como um sorriso no rosto. O mesmo vale para filmes e teatro. Escute
muita música, cante com força, dance à vontade. Tenha algo em que se segurar
quando faltar equilíbrio. Pode ser um deus, uma oração, um mantra, uma
respiração feita cuidadosamente, um hobby – o que for, mas tente encontrá-lo
dentro de você. Dê valor às pessoas, coloque o amor por elas em primeiro lugar.
O resto é consequência de boas atitudes. Quando errar, e vai fazê-lo, tente
consertar. E vê se não desiste de participar dessa bagunça tão cedo. Posso
garantir que tem muita gente do bem e coisas legais para se fazer por aqui,
seja lá quem você for.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Sempre válido
Detesto me justificar. No geral
porque sou bem confiante quanto às minhas boas intenções. Também porque
acredito que quem me conhece não cai no julgamento imediato e superficial, e
quem o faz torna-se desmerecedor de atenção e explicações minhas. E não é
verdade?
Santa inocência.
Tudo bem, botar fé nas pessoas é
muito bom, mas pensar que ninguém em sã consciência vai interpretar nossas
atitudes de forma equivocada já é muita ingenuidade. Além disso, ninguém é
santo. Ou perfeito. Ou coerente em tempo integral. Impossível não levar em
conta a imprevisibilidade humana, até porque a gente mesmo se surpreende com reações
inesperadas. Somos vítimas de circunstâncias (bate aí, Lulu). Erramos. Mesmo as
pessoas boas podem despertar o pior nos mais bem intencionados. E a turminha de
caráter duvidoso, nem se fala.
Mesmo se acreditar que as pessoas
agem segundo os mais nobres propósitos, ainda assim com frequência a gente
aceitaria uma justificativa voluntária.
A vez em que alguém foi indelicado, a ligação que não foi retornada, um
momento de comportamento infantil: tudo isso pesa e faz a gente repensar a
imagem que tem do outro. Um pedido de desculpas cairia bem. E mesmo em casos em
que coisas banais justificam - estava com pressa na hora, esqueceu-se de ligar,
estava num dia estranho -, não acho que alguém dispensaria um esclarecimento.
Exatamente por isso é necessário, sim, deixar satisfações por aí.
As pessoas estão seguindo uma
ideia tendenciosa de que o melhor é ser indiferente. Como se ninguém se
importasse com nada e, mais absurdo ainda, como se não sentisse. Realmente,
muitos valores mudam a cada nova geração, e tudo funciona de uma forma mais
prática. Mas humanos não deixamos de ser. Meus órgãos não são sintéticos, e os
seus?
Logicamente não faz sentido sair
se explicando para todo mundo; tem gente que definitivamente não merece a atenção.
Porém, tendo um pouquinho de consideração por alguém – ou então sabendo-se que é
o objeto de afeto -, é sempre válido demonstrar que o que o outro sente tem
relevância. É bacana deixar de lado o orgulho e dizer que sente muito. Ou um
simples ‘porque’ – junto e sem circunflexo, a boa e velha conjunção
explicativa. Não custa dar um descanso para o acaso, que faz o possível para
corrigir as nossas faltas.
E que tal (veja bem a minha
ousadia) abrir a boca para dizer algo apenas gentil? Foi bom reencontrar aquela
pessoa, o colega teve uma ideia ótima no trabalho, a amiga está linda hoje?
Pois é, eles podem já saber, mas não lhes faria mal ouvir. Ninguém dispensa um
carinho ou mesmo uma massagem no ego. O silêncio é necessário e tem uma força
absurda, mas contando com isso a gente tem deixado de falar até mesmo o
fundamental.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Apreço
Não costumo ser fã. Admiro, aprecio, contemplo e até exalto
o trabalho de muita gente, mas é isso que sou, uma admiradora. O lugar de fã,
dessas de carteirinha, que penduram pôsteres, beijam fotos, choram, gritam,
vivem e morrem pelo ídolo, é um espaço que não ocupo. Claro, a febre Sandy &
Junior dos anos 90 me contradiz, assim como fotos minhas usando faixas com o
nome da dupla na cabeça, mas deixemos para trás essa parte do dig-dig-joy, amigos.
Cumprindo a máxima de que toda regra tem uma exceção, vou
confessar que tenho um ídolo. Ou melhor, uma ídola. Não precisa me conhecer há
muito tempo para saber que eu sou fã dessa mulher, papel este que me dá muita
satisfação. Basicamente porque ela é incrível, merecedora de tal apreço.
O talento dela é de se espantar, parece ter nascido com
todos os dons do mundo. Comove com o que escreve fazendo uso da subestimada
simplicidade, ainda que este não seja seu ofício - o faz apenas em ocasiões
especiais. Fazendo jus à minha carteirinha de fã, guardo todas as publicações
em um baú de tesouros, como se tudo tivesse sido escrito só para mim. E foi.
É criativa como ninguém! Quase tudo no ambiente em que vive
foi feito por ela mesma, saiu tudo da cachola sempre ativa, concretizado pelas
mãos abençoadas. Está aí uma coisa que todo mundo reconhece e se encanta – não
estou sozinha no clube de admiradores.
Por falar nisso, a doçura e a generosidade da criatura
transcendem quaisquer dificuldades, tornando-a indiscutivelmente amável. Saibam
que ela é tudo dentro de si, mas se doa para quem ama sem pensar duas vezes.
Parece conseguir se multiplicar, pois vence mais desafios por dia do que dez de
nós, meros mortais. Não estou falando da Mulher Maravilha, mas bem que
poderia.
Fico feliz da vida quando me dizem que me pareço com ela, já
que, como se não bastasse, a mulher é linda. E um arraso na cozinha, quase
inacreditável. Até cultiva os próprios temperos, da mesma forma que cultiva uma
fé inabalável e valores louváveis.
Nem todo o fã pensa exatamente igual ao ídolo, e nesse caso
não é diferente. Temos muitas ideias em comum, algumas outras divergentes.
Normal, já que somos de gerações distintas e ela tem idade para ser o que
realmente é. Minha mãe.
domingo, 6 de maio de 2012
Quero não
Eu
costumo falar do quanto é importante ter disposição para conseguir conciliar as
tarefas do dia a dia com as atividades que temos vontade de fazer. Realmente,
sem esforço fica difícil realizar mais do que supõe a função descrita no crachá
da empresa. Só que as pessoas têm defeitos e fraquezas, todo mundo tem dias e
fases chatas de desestímulo – desconheço alguém que esteja livre da situação,
por mais inspirado que seja.
Às
vezes a sensação acorda com você, ou então fica esperando com um sorriso
sarcástico ao lado do inconveniente despertador. A gente começa o dia torto,
cai na trela do mau humor, e ai de quem passar na frente. Nesse dia, quaisquer banalidades
tornam-se desafios inoportunos, porque a criatura aqui não está nem um pouco
afim de vencê-los. É um dia sem vontade. Entenda, mundo.
Perceba
que hoje eu não vou ficar ouvindo os problemas de ninguém. Vou desligar o
celular, me enterrar no sofá e assistir aos filmes que deixei de ver no cinema.
Vou ficar sem fazer nada, a louça vai ficar suja ali em cima da pia. É uma
gripe voluntária, avise o patrão.
Hoje
não vou comer só salada. Quero um prato de massa, um pote de sorvete, uma barra
de chocolate. E não vou para a academia depois. Farei um estoque calórico.
Se
me der vontade, vou virar a noite olhando fotos, escutando os discos que
estavam empoeirados na prateleira, experimentando todas as roupas do armário. Ou
chorando loucamente. Vou jogar videogame, passar trote, desenhar bigode em
alguém que esteja dormindo. E se rolar uma chuva, pode me procurar na rua
pulando em poças. Ou dormindo feito um filhote de urso. Vai saber.
Não
quero saber o que deveria estar fazendo. Não me entendam errado; jamais sairia
por aí chutando cachorrinhos ou dando informação errada para fazer alguém se
perder. Simplesmente, sem o ímpeto de ser responsável, coerente ou agradável, mesmo
que só por hoje, não o serei. Inclusive, eu poderia estar escrevendo algo
melhor agora. Lamento, quero não.
Cada
um tem seu motivo para entrar nessa vibração destoada, ou até razão nenhuma em
específico. Não é necessário dar mil explicações para o vizinho que ouve você
choramingando All by Myself a todo volume,
mas, apesar de às vezes cansativo, cai bem avisar os amigos e a família – vai que
o povo resolve fazer uma intervenção achando que a coisa toda tem a ver com
drogas, sei lá. Melhor mesmo é não ofender ninguém com o próprio desânimo.
A
explicação mais importante a gente dá para si. A companhia da qual não se pode
desvencilhar é um porteiro que efetivamente necessita de satisfações; não dá
para evitar confidenciar com ele o que está acontecendo aí dentro. Todo mundo
precisa de um dia para si, sendo inútil ou se divertindo, mas vá lá. Não vai se
deixar levar. Melhor tentar descobrir o que está fora do lugar para poder
voltar ao normal. Porque sorvete é indiscutivelmente divino, mas ver poesia no
trivial também não é nada mau.
Imagem: Gettyimages
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Muito esperto
Então você tem contado umas verdades ao avesso por aí, como quem não quer nada? Converte os fatos em realidades paralelas, flutuantes e impalpáveis? Bobagem. Cria um mundinho em que domina a opinião de todos com frases bem estruturadas, entonação convincente e uma piscadela no final - porque pitada de charme tempera a imagem, não é mesmo? Gênio.
A personalidade foi criada; moldada de acordo com o que for socialmente conveniente. Muda as roupas, o corte de cabelo, a profissão, a mãe. Tudo experimentação, para ver o que agrada mais o público. Confunde pessoa com personagem, porque, ainda que não seja artista, vive do espetáculo. Ensaia as cenas do cotidiano, decora as falas, encarna o eu inventado e fica tudo bem. Não prevê que uma hora deixa-se de ser Johnny para voltar a ser João Guilherme Estrella. Pensa que é eterno. Muito esperto.
Pois bem. Você tem atitude de líder, entra no recinto como se dele fosse dono e todo mundo acredita? Uma pena que integra o time dos fracos, dos inseguros de si mesmos, dos habitantes de armários. Ninguém sabe quem mora ali, por trás da máscara. Há quem note, no entanto, que a figura exposta tem pompa demais. Excesso de sorrisos, de cumprimentos, de vínculos profundos e intensos, nascidos dois minutos atrás. Ninguém soma tantos adjetivos a ponto de a equação resultar em perfeição. Apenas os ilegítimos.
Tem achado graça quando convence com mentiras repentinas, não é mesmo? Confunde enganar com manipular, porque assim acredita que é mais poderoso. Ah, sim. O ludíbrio eleva a confiança que acha que tem. Recebe boa vontade, mas acha mais satisfatório retribuí-la com baboseiras que o põem no domínio da situação. Bom mesmo é ter vantagem sobre todo mundo, passando por cima de quem é do bem, não é? Astuto.
Meus parabéns. A vitrine está montada, brilhando, e a mercadoria é uma só: você, astro! Mas a vida é feita por quem é de pele e osso; independe do figurino. Aos poucos o lobo revela-se cordeiro, embora, pobrezinho, não perceba. E a plateia assiste, sem reação, à sua forma desfigurando-se, pois não há conteúdo para sustentá-la. Senhoras e senhores, o espetáculo é efêmero.
Imagem: Reprodução.
terça-feira, 10 de abril de 2012
O Cheesecake Todo
Quem já teve que fazer regime para perder peso, sabe o quanto é chato. Cortar uma infinidade de delícias da dieta, diminuir as quantidades, comer coisas leves e apenas em horário determinado são desafios bem difíceis. As refeições passam a ser um compromisso cujo cumprimento exige atenção a detalhes e regras; às vezes até perdem a graça. E quando você vê, já acabou – aguarde mais três horas no mínimo. Porém, levando-se em conta que esse tipo de sacrifício oferece em troca inúmeras vantagens, basta determinação para aguentar. Por um bom motivo, a gente aceita o pouco que vem no prato.
Mas não deveria ser assim para tudo. Aceitamos pouco demais. Contentamo-nos com falta de tempo, com salário ruim, com atenção de menos, com pouquíssimo afeto, com respeito nenhum. Admitimos o excesso de escassez. Vivemos na sociedade do trabalho-antes-do-lazer, e ai de quem fugir do padrão e se divertir tanto quanto (ou mais do que) cumpre em serviço. Oferecemos tempo, energia, dinheiro e paciência, para receber em troca nada além de pouco.
A ideia que a hierarquia nos passa faz com que pensemos que não podemos, não conseguimos - e pior -, que não temos direito. Não apenas em se tratar da autoridade do governo em confronto com a suposta impotência da população, mas também a mídia envia essa mensagem. Qualquer um vira celebridade sem sequer mostrar talento ou mérito, mas é colocado na posição de superior. E, em consequência, o resto vira inferior. Quem fica no nível de baixo entende que não tem voz e não pode fazer as mesmas coisas que quem tem poder, ou melhor, quem aparece.
Esse tipo de visão também rege os mais medíocres círculos sociais. É nítido que em algumas cabecinhas habita a ideia de que quem não satisfaz determinadas condutas impostas virtualmente - sejam elas de âmbito estético, financeiro ou cultural -, não é apto para integrar o seu grupo. Entretanto, o mais espantoso é que esse tipo de pensamento de fato exerce força em quem dele é alvo. Uns se colocam alguns degraus acima dos outros, simplesmente porque assim decidem, e a massa fica olhando lá de baixo, inerte.
Pois cá estou eu, cidadã das mais comuns, exigindo o muito. Não ocupo um cargo de poder, tampouco sou famosa, e muito menos herdeira do Bill Gates. Mesmo assim, não há criatura nesse mundo que possa desmerecer minhas opiniões, anular os meus direitos ou fazer com que me sinta irrelevante. No meu regime, não dispenso o meu espaço. Que fique claro: sou absolutamente contra qualquer sinal de arrogância. É exatamente o equilíbrio entre a modéstia e a autoconfiança que nos proporciona a prerrogativa de, sem invadir o espaço de ninguém, não aceitar pouco à toa.
Não me venha com atenção pela metade, restos de sentimento, histórias incompletas, respeito em falta. Não aceito migalhas. No caso da dieta, contenho-me. Durante esse período é indispensável gastar mais (calorias) e consumir menos. Mas, veja bem, se for para quebrá-la, me entregar ao maravilhoso mundo do açúcar, que seja com intensidade. Que seja com uma fatia imensa de cheesecake. Ou ele inteiro. Nada menos.
Imagem: Gettyimages
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Que Vergonha
Por ter ficado na dúvida sobre qual sinal de pontuação teria melhor efeito no título, preferi não utilizar nenhum, até porque o uso não é obrigatório. Fica destinado ao leitor decidir se cabe ali uma dúvida, uma exclamação, ou ponto nenhum, sem grandes emoções. Mas não se aprece; deixe para eleger após a leitura dos próximos parágrafos.
Passa o tempo e as tendências de comportamento têm mudado numa frequência cada vez maior. A metamorfose tem acontecido tão rápido que fica até difícil posicionar-se criticamente e avaliar o que está acontecendo. Parece-me hoje que o mundo inteiro está qualificado para ser juiz das partidas cotidianas de sobrevivência. Por todos os lados, pares de olhos atentos acompanham os movimentos alheios e ouvidos escutam o que está sendo dito. A notícia boa é que os sentidos do corpo estão em plena atividade. À exceção do tato, que parece estar em falta no mercado das ciências humanas. O fato é que tem gente se confundindo e acaba achando que pode sentir pelos outros.
Voltando ao campo da ciência, quero revelar a minha desatenção para tal. Acho que foi descuido meu, mas parece que fui a única a não ficar sabendo de uma descoberta revolucionária: pode-se transferir vergonha por osmose. Cientistas chamam o fenômeno de Vergonha Alheia (VA). Trata-se de capacidade humana de deslocar espontaneamente a sensação de constrangimento de uma pessoa para outra. O mais incrível é que o indivíduo de origem não precisa nem mesmo saber da existência do sentimento. Na maioria dos casos, a vergonha só é percebida pelo receptor. Atualmente estão sendo realizadas pesquisas sobre um fenômeno parecido, porém no qual a transferência ocorre por telepatia.
A descoberta em questão acabou gerando problemas no campo social. Acontece que as investigações tiveram início em Brasília e continuaram em outras grandes cidades brasileiras. Os pesquisadores tentavam avaliar a reação dos cidadãos diante de acontecimentos oriundos de um local chamado Praça dos Três Poderes, pois suspeitava-se de que o lugar era fonte de altos níveis de radioatividade. Os cientistas chegaram à conclusão de que realmente havia radiação, o que anulava os efeitos da VA originados na região.
A verdadeira confusão tomou cabo quando os dados foram divulgados. A população ateve-se majoritariamente ao fato de que poderia utilizar-se do fenômeno em qualquer outra parte do mundo, dando pouca importância à única em que não poderia. A partir de então, desencadeou-se uma epidemia de Vergonha Alheia, atingindo principalmente os jovens que, uma vez contaminados, não conseguem controlar o fenômeno.
A assessoria de imprensa do Sistema Único de Saúde (SUS) publicou uma nota informando que a VA foi incluída na Lista Nacional de Doenças Sociais. Os sintomas detectados até então foram: desaprovação da roupa alheia, crítica ao gosto musical diferente do próprio, ausência de autoconfiança, excesso de interesse nas atitudes dos outros e falta de atividades para preencher o tempo e a mente. Todo mundo desnutrido de respeito. Foram veiculadas campanhas em diversas mídias para auxiliar na identificação do quadro.
O Ministério da Saúde adverte: Essa doença pode ser contagiosa, mas na maioria dos casos desenvolve-se dentro de cada um. O tratamento é indicado mesmo em casos de suspeita de dengue.
P.S.1: Todos os dados são fictícios.
P.S.2: Pronto, agora já pode pontuar o título.
Imagem: Gettyimages
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